Harry Blackstone Copperfield Dresden é um detetive particular. Mas ele também é um mago. Ou talvez ele seja um mago que também é detetive particular. Seja como for, ele é uma criatura rara e única em Chicago, que usa suas habilidades mágicas para investigar tudo aquilo que o contratam para investigar, de infidelidade a desaparecimentos, mas que também esporadicamente trabalha para a polícia local quando os crimes cometidos parecem ter natureza sobrenatural. Essa é a premissa de Frente de Tempestade, que apresenta o personagem e é, também, o primeiro romance de Jim Butcher no geral e, claro, o primeiro da série literária Os Arquivos Dresden que, na data de publicação da presente crítica, caminha para o 19º capítulo.
O mundo criado por Butcher mistura a atmosfera hard-boiled noir dos romances pulp de Dashiell Hammett e outros autores semelhantes da primeira metade do século XX com fantasia que, pelo que é indicado nesse primeiro livro, parece incluir uma variedade grande de “figurinhas fáceis” em obras dessa natureza, como magos vilanescos, vampiros, fadas e até mesmo um conselho mítico que controla o uso de magia por quem quer que seja. Mas o mundo fantástico que existe em simultaneidade ao semblante de “mundo real” que vemos não é um submundo, não existe nas sombras ou de maneira furtiva, secreta, longe dos olhos dos humanos comuns. Muito ao contrário, a amálgama é completa e, ainda que a magia seja vista com trepidação por aqueles que não têm o talento e/ou habilidade, ela faz parte do cotidiano de todos, a ponto de o protagonista anunciar-se como detetive e mago e a polícia local enfrentar crimes que foram potencialmente cometidos por meio de magia como se não fosse novidade alguma.
Frente de Tempestade, porém, é compreensivelmente uma obra segura, que jamais assume riscos e faz precisamente aquilo que precisa fazer para entregar um novo personagem em um novo mundo, ainda que eu use o adjetivo “novo” com bastante liberalidade. Afinal de contas, faz parte do jogo seguro de Butcher o uso de arquétipos conhecidos por todos e que são largamente usados na literatura e no audiovisual, seja na forma como o personagem é construído ou em como esse universo “real, mas com magia” é apresentado. Para começo de conversa, a narrativa é em primeira pessoal, classicamente emulando a literatura noir mencionada. Além disso, a contratação de Dresden por uma mulher para localizar seu marido desaparecido e sua quase simultânea convocação pela polícia para dar seu parecer sobre um homem e uma mulher assassinados brutalmente com seus peitos explodidos de fora para dentro enquanto transavam parece ser milimetricamente extraído do Manual Básico de Literatura Pulp para agradar o público mais amplo possível que deseja algo confortável para ler. Além disso, Dresden não tem aonde cair morto, com sequer o suficiente para pagar o aluguel da sala que usa como escritório.
No entanto, claro, esses aspectos não são deméritos para o romance. Ao contrário, Butcher consegue, com bastante desenvoltura e economia, conjurar seu mago-detetive como um personagem interessante em uma Chicago contemporânea – ou quase, pois há uma qualidade atemporal no que ele escreve – que funciona como ambientação para a coexistência de magia com um mundo que já conhecemos de outros carnavais. Não há nenhuma tentativa de criar complexidade, mas o autor estabelece um personagem que já carrega um passado recheado de acontecimentos ao longo de décadas que, imagino, será material para ser abordado em romances futuros, já que mesmo aqui há um pouco dessa abordagem, notadamente a presença de Morgan, mago do Conselho Branco que detesta Dresden e faz de tudo para fazer a vida dele um inferno. Os casos investigados – porque claro, eles convergem – são cativantes na medida certa para uma história introdutória que, porém, não é de origem, com um cuidado grande para o lado sobrenatural não ter uma presença exagerada na narrativa, abrindo espaço para outros personagens, como a tenente Karrin Murphy que convoca Dresden para a consultoria na polícia, o mafioso Johnny Marcone que exige que o protagonista se afaste do caso e, claro, Bob, um espírito que vive dentro de uma caveira no porão do detetive.
Com regras bem estabelecidas sobre o uso de magia e evitando ao máximo transformar Dresden em um mago superpoderoso de maneira a tornar tudo fácil demais ou exigir contorcionismos para criar ameaças grandes o suficiente para ele, Frente da Tempestade é um competente, ainda que básico, início de universo que oferece ao leitor uma boa união de história de detetive com mundo de fantasia. Fica claro que Jim Butcher testou águas ao pinçar elementos formulares de diversas fontes diferentes para criar seu protagonista e a ambientação, pelo que é de se esperar que ele, com o tempo, tenha conseguido ir além de algo confortável e talvez fácil demais para os leitores, mesmo dentro de uma proposta que talvez não almeje voos muito altos.
Frente de Tempestade (Storm Front – EUA, 2000)
Autoria: Jim Butcher
Editora original: Roc Books
Data original de publicação: 1º de abril de 2000
Editora no Brasil: Editora Underworld
Data de publicação no Brasil: 2011
Páginas: 332