Chay Suede protagoniza peça teatral que explora questões de fama e identidade pessoal

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O teatro, por vezes, é o lugar onde um rosto familiar se torna um enigma. Em “A Vida e as Opiniões do Cavalheiro Roobertchay”, o que vemos não é a celebração de um ídolo da televisão, mas sua metódica desconstrução. Sob a direção de Felipe Hirsch, Chay Suede entra em cena para sabotar a própria imagem pública em uma operação de alta precisão intelectual e estética.

A peça marca o reencontro de um trio que é a espinha dorsal da renovação cênica brasileira: Hirsch, a cenógrafa Daniela Thomas e o produtor Luque Daltrozo. Juntos, eles transformam a biografia de Suede em um “pseudo-documentário” fragmentado, onde a verdade é apenas uma das muitas possibilidades da invenção. O título, um aceno elegante ao Tristram Shandy de Laurence Sterne, já anuncia o tom: uma narrativa que se perde em digressões, que prefere a interrupção ao fluxo e o vazio à completude.

No palco, a linha dramatúrgica — lapidada pelo tradutor e escritor Caetano W. Galindo — organiza-se em doze fragmentos, como os Trabalhos de Hércules de um herói improvável. A infância capixaba, os negócios excêntricos do pai, os shows vestidos de alienígena em shoppings: tudo é elevado a uma linguagem formal, quase aristocrática, que cria um curto-circuito delicioso com a natureza popular dos relatos. É aqui que Hirsch e Galindo tocam a herança de Machado de Assis; há um Brás Cubas latente na ironia com que Roobertchay narra as próprias lacunas.

A cenografia de Daniela Thomas e Felipe Tassara é, por si só, um personagem. Uma plataforma vertical recebe projeções do Estúdio Radiográfico, mas o que vemos é um quebra-cabeça incompleto, com peças faltando. É a tradução visual perfeita para a memória: um território de falhas e borrões. Nesse espaço, o figurino de Eliana Liu faz o ator oscilar entre o terno sóbrio do narrador e uma fantasia de tubarão, lembrando-nos que a identidade, para o homem público, é uma performance ininterrupta.

O que mais surpreende, no entanto, é a contenção de Suede. Conhecido pela vivacidade física nas telas, aqui ele é mantido em uma imobilidade quase estatuária. Hirsch obriga o ator a confiar apenas na palavra e no domínio vocal. Suede responde com uma maturidade vocal impressionante, manejando o texto denso de Galindo com uma economia interpretativa que só se rompe no final. Ele não interpreta a si mesmo; ele interpreta o “duplo” que a fama construiu, confrontando o narcisismo e a mercantilização da imagem com uma lucidez cortante.

“A Vida e as Opiniões do Cavalheiro Roobertchay” é um espetáculo que oferece um espelho para o nosso tempo, onde a autenticidade tornou-se uma moeda volátil. Ao afirmar que “tudo é mentira, menos o que parece mentira”, a peça nos convida a desconfiar do relato enquanto nos maravilhamos com a beleza de sua construção. É um teatro de ideias que, ao usar a cultura de massa como matéria-prima, consegue produzir uma crítica sofisticada e profundamente política sobre o que significa ser visto no século 21.

Três perguntas para…

… Caetano W. Galindo

Existe um contraste linguístico entre o tom erudito do texto e as experiências populares narradas. Como você trabalhou essa tensão para que a linguagem não soasse como um adorno, mas como uma ferramenta de estranhamento?

A linguagem rebuscada, meio antiquada e artificial da peça foi uma ideia do diretor Felipe Hirsch na qual embarcamos desde cedo. Ancoramos essa embocadura no livro “A Vida e as Opiniões do Cavalheiro Tristram Shandy” de Laurence Sterne, que nos serviu para escapar da tendência confessional, hoje muito forte no teatro e na literatura.

Usamos esse “mascaramento de lantejoula” para gerar um humor que deriva exclusivamente do contraste: fazer uma piada de quinta série enquanto se fala um português do século 18 ou 19 ganha um efeito totalmente novo. Acabou sendo uma saída produtiva que nos permitiu arriscar coisas que não faríamos em uma linguagem direta, pois soariam óbvias demais.

A peça é descrita como um “pseudo-documentário”. Em que medida a sua dramaturgia se preocupa com a verdade histórica de Chay Suede e onde ela se torna deliberadamente uma “mentira verdadeira”?

Entrevistamos o Chay por oito horas, ouvindo toda a sua trajetória, e decidimos nos concentrar na vida dele antes do sucesso. Pegamos elementos coloridos da biografia e, embora muitas passagens pareçam improváveis, elas são reais. Ao mesmo tempo, misturamos elementos do livro de Sterne e invenções próprias. Chegou um momento em que já não distinguíamos o relato original da nossa memória ou do desejo de acreditar em certas coisas.

Esse descolamento da realidade documental era o que nos interessava. Como se trata de uma celebridade, pareceu interessante fingir que entregamos a verdade, mas de forma tão descaradamente exagerada que soa como mentira. No entanto, estamos fornecendo muita informação real, protegida por esse manto do barroco e do ridículo.

Felipe Hirsch é conhecido por uma encenação visualmente rigorosa. Como é o processo de escrita sabendo que o texto será “atropelado” ou amplificado pela cenografia ativa de Daniela Thomas?

Eu venho do mundo dos livros e das letras, onde você concebe, executa e publica uma obra, e a colaboração de terceiros — como editores e revisores — funciona apenas como “adjetivos” para o que você já pretendia fazer. No teatro, o processo é fascinante justamente porque as coisas não funcionam assim. O texto escrito é apenas o começo, um ingrediente da sopa.

Enquanto na literatura os outros temperam o seu trabalho, no teatro é você que se torna um ingrediente. O diretor, os atores, a cenografia, a iluminação e a performance de cada noite transformam a peça, fazendo com que todos se dissolvam um pouco nesse caldo ou, como diz o Felipe, passem a compor um mosaico onde as peças formam algo maior do que cada um individualmente.

Nesse caso específico, houve dados a mais: o texto não é integralmente meu. Ele surgiu de uma longa série de conversas com o Chay e com o Felipe, onde fomos elaborando e decidindo o caminho. Só depois escrevi uma primeira versão, que o Felipe passou a ler, comentar e alterar. Sabíamos que esse resultado final seria multiplicado pelas intervenções da Daniela Thomas e do pessoal do Radiográfico, que produziram o material em vídeo a partir de ideias que circulavam entre toda a equipe — do Chay aos assistentes de direção.

É um somatório de competências e criatividades onde o trabalho individual é potencializado pelo grupo. Essa felicidade de jogar em um time com esse grau de competência, onde o resultado final não pertence nem deriva exclusivamente de ninguém, é o que torna o processo realmente forte e bonito.

Teatro Cultura Artística – rua Nestor Pestana, 196 – Consolação, região central. Sábado, 21h30. Domingo, 19h30. Até 3/5. Duração: 90 minutos. Classificação indicativa: 14 anos (menores de 14 anos apenas acompanhados dos responsáveis legais). Ingressos: R$ 110 (plateia central) em ticketmaster.com.br



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