Indignação moral não será suficiente para garantir a eleição de Lula, avalia Wilson Gomes

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Lula e a deputada Erika Hilton não têm o mesmo eleitorado. Parece óbvio, não é? Mas tudo indica que a comunicação política do governo não opera com essa distinção com a clareza necessária. Lula jamais seria eleito se fosse o candidato presidencial do PSOL, partido que hoje protagoniza a agenda moral progressista. Ele, que vem de outra cepa de esquerda, deveria ser o primeiro a saber disso. Os sinais que ele vem emitindo, contudo, sugerem que o presidente está confuso.

Estamos no final da terceira década do século 21, mas a maior parte da esquerda continua achando que passar da ênfase na opção preferencial pelos pobres —que a distinguia no início do século— para a ênfase na denúncia das opressões morais e nas políticas de reparação foi simplesmente uma progressão necessária. Lula faz parte desse grupo.

Lula, que não se move com desenvoltura nesse registro, aceitou que a política contemporânea existe para resolver as opressões estruturais e simbólicas. O país continua com déficits estruturais severos: saneamento precário, desempenho educacional alarmante, serviços públicos de baixa qualidade e desigualdades persistentes. Mas temos as melhores leis do universo contra o racismo, a transfobia e, se tudo der certo, a misoginia. Se isso basta para os que votarão em outubro, não sei, mas tudo indica que não.

Nos últimos meses, contudo, a esquerda tem apostado tudo em pautas simbólicas e morais. Mesmo uma pauta de corrupção econômica, como a do Master, que não deveria envolver o governo, acabou no seu colo porque os petistas correram para transformá-la em uma disputa moral, lendo as denúncias do jornalismo como um ataque neolavajatista ao Supremo Tribunal Federal. Bem, se era uma guerra moral e a esquerda escolheu o lado errado, não deveria se surpreender se o governo aparece como o principal perdedor na percepção pública.

O caso das iniciativas legislativas em torno da misoginia ilustra o ponto. O governo não apenas aderiu a diagnósticos controversos —que a misoginia causa feminicídio, que o feminicídio aumentou—, como também reforçou a ideia de que conflitos sociais e morais devem ser enfrentados por meio de tipificação penal e agravamento de punições. A percepção é de que temos um governo mais atento à regulação do discurso do que à resolução de problemas concretos.

É nesse contexto que a comparação com Erika Hilton se torna instrutiva. Ela está com a vida e a reeleição ganhas, Lula não. O discurso e a performance política dela se dirigem a um conjunto de “vítimas da opressão moral” e aos guerreiros da justiça da elite progressista que consideram que política é luta por desagravos e reparações para um conjunto fixo e seleto de vítimas.

A deputada fala para um público específico: segmentos altamente escolarizados, brancos, bem de vida, concentrados nas grandes metrópoles, inseridos em circuitos culturais e profissionais onde a agenda de reconhecimento moral tem centralidade.

Trata-se de um eleitorado muito vocal, com alta capacidade de influência simbólica —especialmente nas redes sociais, na imprensa e em instituições culturais—, mas numericamente limitado como toda elite. Para ela, é suficiente: bastam 300 mil votos para uma renovação do mandato. Para Lula, não.

Não é questão de nicho, mas de escala. Para vencer uma eleição presidencial, precisa de uma coalizão muito mais ampla, que inclua segmentos populares hoje conservadores em termos morais. A política como performance moral —a exibição de virtudes e a denúncia de opressões morais —mobiliza, engaja e fideliza eleitores, mas funciona de maneira assimétrica.

Essa atitude beneficia mais a direita do que a esquerda. O voto moralmente conservador é certamente muito maior do que o voto moralista dos progressistas, porque na direita ele é base, numeroso, e na esquerda ele é elite, minúsculo. A pirâmide social aqui é fatal. Identitários de direita transformam indignação moral em bancadas enormes nas casas legislativas; identitários de esquerda produzem barulho, não mandatos. Assim, a cada Erika Hilton eleita nos campeonatos morais, corresponderá um monte de Nikolas Ferreira, Pavanatos e Maltas eleitos do outro lado.

O que significa que a pauta pode favorecer mais um candidato presidencial de direita do que de esquerda. O bolsonarismo, por exemplo, conseguiu acoplar uma base conservadora a uma elite hiperliberal, o que lhe dá condições numéricas de vitória. A esquerda não consegue acoplar sua elite progressista a uma base popular tão numerosa. Dá para eleger um Bolsonaro com essa equação, não um Lula.


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