Dona Lola: A inesperada estrela da terceira idade
Imagine uma senhora na casa dos 70 anos que, entre um ponto de crochê e uma receita de família, se torna a nova sensação de milhões de pessoas. Sem buscar fama, sem entender algoritmos ou tendências digitais, essa personagem incorpora um fenômeno recente: o desejo coletivo por histórias reais, humanas e longe das luzes artificiais das redes sociais. Em “Dona Lola”, Marcelo Médici eterniza essa figura com uma performance que é ao mesmo tempo afetuosa e crítica, explorando o desafio de envelhecer num mundo obcecado pela imagem exibida nas telas de celular.
Uma narrativa de permanência e profundidade
Com uma carreira de 35 anos que flutua entre o drama clássico e a comédia popular, Médici se une novamente a seu parceiro criativo Ricardo Rathsam. Diferente do formato dinâmico de suas obras anteriores, o espetáculo aposta na intensidade da permanência: quase 80 minutos com a personagem Lola no palco, permitindo uma imersão profunda em sua história. Inspirada na avó real do ator, Lola é mais que uma dona de casa; é um retrato sociológico da invisibilidade social e da perigosa busca por validação digital que aflige todas as gerações.
O paradoxo da fama digital e o palco real
A turnê de Lola começa após a viralização de um vídeo gravado pela neta, Thais, que a impulsiona ao teatro tradicional. No entanto, o clima se transforma quando suas amigas de longa data, Marli e Olga, que incentivaram sua apresentação, faltam no dia da estreia. Esse abandono é o estopim para um desabafo ácido e revelador de Lola, que expõe segredos, hipocrisias e vulnerabilidades das ausentes, criando um espetáculo que mistura humor, melancolia e crítica social.
O elenco e a força das ausências
Destaque para a direção de arte e para o elenco, com nomes como Tony Ramos e Antonio Fagundes interpretando as amigas que nunca aparecem. Essa escolha não é apenas um luxo teatral, mas uma estratégia que reforça o isolamento e a humanidade de Lola. Médici constrói a personagem com sutileza — detalhes no olhar, pausas, gestos inspirados pelas mulheres da sua própria família — gerando uma identificação imediata e dolorosa no público. O riso não é de deboche, mas de reconhecimento.
Humor com verdade e crítica ao etarismo
O espetáculo aborda com precisão o etarismo e a obsessão contemporânea por atenção, temas delicados, mas cruciais. Ele critica a predominância de influenciadores digitais no teatro, que possuem seguidores, porém carecem de repertório e profundidade artística. Lola contrasta esse fenômeno com sua história genuína e complexa, mostrando que a maturidade tem muito a oferecer para além do brilho efêmero das redes sociais.
Dinâmica criativa e legado cultural
Marcelo Médici e Ricardo Rathsam compartilham uma relação de trabalho baseada na improvisação e na complementaridade. Essa dinâmica permite que o espetáculo seja constantemente moldado e atualizado, acompanhando as mudanças do mundo. “Dona Lola” herda uma tradição brasileira clássica de humor e observação social, que vai de Procópio Ferreira a Chico Anysio e Jô Soares, usando arquétipos para revelar as contradições da sociedade nacional.
Onde e como assistir
O espetáculo está em cartaz no Teatro dos 4, localizado no Shopping Gávea, com sessões aos domingos às 17h, até 17 de maio. Com duração aproximada de 80 minutos e classificação indicativa a partir de 12 anos, os ingressos podem ser adquiridos a partir de R$ 70 (meia-entrada) pelo site Sympla. Uma oportunidade rara de ver o teatro brasileiro refletindo com humor e sensibilidade sobre o envelhecimento, as redes sociais e o lugar das pessoas mais velhas na cultura contemporânea.