‘Capa Rosa’ explora a música urbana paulista em nova obra registrada em 24/04/2026

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“Que teu pai aqui te espera”. O verso que conclui “Sopros da Escuridão”, faixa final do álbum “Capa Rosa”, de Mário Sève e Guilherme Wisnik, trata das intersecções verticais-horizontais do amor entre pai e filho. A triste canção de ninar de Sève, letrada e cantada por Wisnik filho, recebe, abaixo de si, no grave, o piano e, muito acima, ao longe, no agudo, a voz do pai, o músico José Miguel Wisnik.

O amor paternal não é tema recorrente na música popular brasileira, mas há, por exemplo, a incrível “Ninguém Chora por Você”, de Luiz Tatit, e também “Boas-Vindas”, de Caetano Veloso.

“Sopros da Escuridão” consegue, por instantes, um prodígio, que é entrar no mundo da criança pequena que dorme, para quem o pai ao mesmo tempo está e não está ali; assim como, ao longo dos tempos, filhos e pais sempre estarão e não estarão uns com os outros. Daí vem a ternura, mas também a tristeza, que só abraço real pode ou poderia aplacar.

“Capa Rosa”, com lançamento previsto para 8 de maio, traz oito canções em parceria do compositor, arranjador, flautista e saxofonista carioca Mário Sève com Guilherme Wisnik, arquiteto e ensaísta paulista, professor da tradicionalmente mais musical dentre as escolas da Universidade de São Paulo, a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo.

Apesar de Sève ser carioca, seu trabalho com Guilherme Wisnik insere-se na particularíssima tradição da canção popular urbana paulista. Menos segura de suas origens —em comparação com Rio, Recife ou Salvador, por exemplo—, cosmopolita e aberta, a música popular paulista pode ter belezas hesitantes, deslocadas, tortas; é criativa na ironia, racional na poesia e concreta em sua arquitetura.

A mão da parceria parece engatar ao longo do disco. Algumas canções às vezes carecem de uma fraseologia mais ampla, que possa subverter a tendência silábica da prosódia, e a homogeneidade dos arranjos assinados por Sève pode também roçar esquematismos, como em “Damasco” e “No Japão”.

Da mesma forma, “Capa Rosa” —”copa rasa?”—, a faixa-título, tem música e letra bem resolvidas; a conexão entre ambas, porém, ainda não flui totalmente natural, como se a ideia pairasse alguns milímetros além da realização. São os riscos das linhas e curvas, das veredas urbanas da canção.

A voz dominante no álbum é a de Celso Sim, cantor de timbre trabalhado, graves robustos, vibrato exato e afinação top, e são marcantes as participações de Jussara Silveira; Mônica Salmaso ganhou “Toada” —que conta a nobre presença do acordeon de Toninho Ferragutti—, e Lu Alves surge com brilho em “Sem Preparo”.

Herdeira dos enigmas do “Xote de Navegação”, de Chico Buarque e Dominguinhos, “Sem Preparo” também trata das esperas e silêncios incompatíveis com a paixão, cujo crescendo desfaz o ritmo lento necessário aos projetos, à construção paulatina dos cenários da vida.

Fabio Torres, presente ao piano com seu gosto exato e conexão perfeita com o páthos melódico-harmônico, atua em três das faixas de um trabalho no qual o instrumento tem amplo destaque, e também as presenças igualmente notáveis de Cristóvão Bastos, Benjamin Taubkin e Zé Miguel Wisnik.

Em “Quando Você me Inventou”, Celso e Jussara cantam juntos. Luz e sombra, chão e colcha, cuidam de tratar da força de um amor forte, e, quando cessam as palavras, há ainda o improviso de Fabio Torres.

Em arranjos de base dominados pelo piano, o samba “Torres de Marfim” —com ecos de Paulinho da Viola— surpreende a textura pianística ao contar com o cristalino violão de Edmilson Capellupi. A canção lida com o vazio do sentimento, com a imagem das varandas balançando ao léu: arquitetura e música juntas, para inventar sentidos onde nada mais há.

Ponto alto é igualmente “Fio da Voz”, em que Celso Sim interage com Cecilia Stanzione. Perfeita na prumada, com dramaticidade calculada, é cantada duas vezes “da capo al fine”, em português e espanhol. É como os clássicos são: chega, diz o que deve dizer e vai embora, deixando cada um de nós a sentir e pensar.



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