Exposição na Casa Domschke revela o colapso de um sonho artístico

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Jovens atravessam as entranhas de uma casa. Entre beijos, abraços e carícias, os movimentos inspiram uns aos outros e eles se comportam como um único ser. É quando chegam ao telhado e se jogam aos montes —toda vida ali é descartada.

Num canto escuro da Casa Domschke, do arquiteto Vilanova Artigas, o vídeo resume angústias que moldaram esculturas de Marco Antonio Castillo. Em cartaz em São Paulo, com organização da galeria Nara Roesler, o artista cubano mira outras contradições fora a vida e a morte —a ideia é iluminar a falência de um sonho utópico, cujas mudanças originaram uma distopia.

Para tal, reuniu móveis de quando Fidel Castro derrubou a ditadura de Fulgencio Batista. O contexto lançou designers como Gonzalo Córdoba, projetou uma nova sociedade e infiltrou promessas no ambiente familiar. Durou pouco —a queda da União Soviética, em 1991, reforçou as consequências da Guerra Fria.

Na infância, Castillo não entendia a situação. Paredes barravam sussurros e o mobiliário absorvia a preocupação dos pais. Não por acaso, a obra que recebe o visitante lembra um satélite, preso à parede. Composta por círculos de madeira, a peça referencia uma luminária de Córdoba e acena ao equipamento que interceptava sinais, diz a curadora Livia Debbane.

Desse cenário incerto surgiu “A Casa do Decorador”, que põe o último entre os responsáveis por imagens ideológicas. A mostra já ocupou várias residências pelo mundo —a de Artigas, cuja arquitetura buscava a transformação social, subverte a opressão retratada. Rampas arejadas permitem o trânsito e é possível ver e ouvir todos os andares de qualquer lugar.

“Artigas sonhou com a utopia no Brasil e trabalhou intensamente para expressar os seus ideais. Isso gerou muitos problemas para ele durante a ditadura“, explica Castillo ao justificar a escolha para o capítulo brasileiro da exposição. “Eu nasci e cresci nessa utopia. Há muito que adoraria ter compartilhado com ele.”

No andar de cima, um móvel vigia outras obras, com tiras de madeira semelhantes ao corpo de rifles. Para Theo Monteiro, pesquisador da Nara Roesler, é um modo de resgatar o fantasma bélico da Guerra Fria, quando conflitos indiretos ameaçavam virar realidade o tempo todo.

Embaixo, pendem do teto três esculturas de materiais nacionais, como madeiras típicas e redes de palha. Os componentes, dos quais pendem formas geométricas, sugerem uma linguagem codificada e remetem a informações que circulavam na surdina.

Tal noção de mensagens escondidas define ainda uma série espalhada pelo imóvel. Nela, o artista escava a contracapa de livros e inscreve letras em baixo-relevo. A junção desses exemplares resulta em frases como “ditadura” e “paradoxo”, escondidas entre páginas. Já outros apresentam desenhos abstratos.

“Castillo pensa em uma sociedade que buscava a liberdade, mas que se viu num regime não democrático, que não prestava contas à população”, diz Monteiro. “O que ele faz é evidenciar essas contradições, dentro e fora desses livros, a partir de uma linguagem cifrada.”

Noutra sala, um dos projetos enfileira encostos de madeira numa curva. A extremidade que mira o teto tem formato de estrela, cuja leitura se aproxima da idealização. O eixo colado ao chão, por sua vez, reduz essa imagem a um assento comum.

Também estão expostos trabalhos que antecedem a tridimensionalidade do cubano. Entre tons vibrantes e pinceladas que parecem se dissolver, telas convertem um salão em depósito de pesquisas. São quadros psicodélicos que ajudaram Castillo a estudar a criatividade daquele período.

Para Monteiro, as cores fortes e os traços lisérgicos recuperam a arte pop cubana, tida à época como “deturpação burguesa”. “Aquela geração caiu no esquecimento. Ditaduras costumam sufocar gerações brilhantes”, afirma o pesquisador.

“No Brasil, curiosamente, elas não foram abortadas. Em um país menor, é mais fácil calar essas vozes.”

Sobre a internet ter virado um novo espaço de manipulações, Castillo critica a sobreposição de ideologias e identidades. “Debater se torna impossível. As pessoas se sentem cada vez mais confortáveis para expressar ideias, e é perigoso quando transformam suas crenças políticas em quem elas são.”



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