Existe algo de profundamente vazio em Michael, e não no sentido existencial que grandes cinebiografias às vezes buscam ao retratar figuras inalcançáveis, mas no sentido mais frustrante possível: o de um filme que observa uma vida gigantesca e decide reduzi-la a uma vitrine polida de momentos reconhecíveis. Antoine Fuqua, um diretor que já demonstrou saber trabalhar com tensão e intensidade dramática, aqui parece domesticado por um material que nunca o permite arriscar. O resultado é um longa que não falha por falta de grandiosidade, mas por falta de coragem.
Desde seus primeiros minutos, o filme deixa clara a sua proposta ou melhor, a sua limitação. Ao acompanhar a trajetória de Michael Jackson desde os tempos do Jackson 5 até o auge da era Bad, a narrativa se organiza como uma sucessão de marcos biográficos já amplamente conhecidos, tratados quase como itens obrigatórios de uma checklist cultural. Não há aqui um interesse real em compreender o personagem, apenas em reafirmar o mito. Cada evento surge como uma cápsula isolada, uma vinheta que existe não para aprofundar, mas para lembrar ao espectador que aquilo aconteceu. É o “cinema da Wikipédia” ou tramas de “greatest hits” que assola boa parte de cinebiografias de artistas musicais, onde a cronologia substitui o drama e a memória coletiva toma o lugar da interpretação.
Esse tipo de abordagem, como falei, não é exatamente novo. A onda recente de cinebiografias musicais, impulsionada por sucessos comerciais e pela lógica de reconhecimento imediato, frequentemente se apoia nessa estrutura episódica. Mas mesmo dentro desse modelo, há escolhas possíveis: focar em um recorte específico, construir um conflito central, ou ao menos estabelecer uma progressão emocional clara. Michael não faz nada disso. Ele avança aos saltos, atravessando anos, discos e transformações pessoais com a pressa de quem precisa chegar ao próximo momento icônico. E, nesse movimento, tudo o que poderia dar densidade à narrativa se perde no caminho.
A relação familiar, que deveria ser o eixo dramático mais potente, é talvez o exemplo mais evidente dessa superficialidade. Joseph Jackson (Colman Domingo) surge como uma figura autoritária, quase caricatural, reduzido ao arquétipo do pai abusivo que molda o sucesso dos filhos à base de rigidez e violência. Há verdade nesse retrato, evidentemente, mas falta complexidade. O filme não investiga as contradições desse vínculo, não explora os efeitos psicológicos de longo prazo, não permite que o conflito respire. É um antagonismo funcional, que existe apenas para justificar a ascensão do protagonista, sem jamais realmente tensioná-la.
Essa mesma lógica se aplica à construção de Michael Jackson como personagem. Ou melhor, à ausência dela. O filme opta por uma abordagem extremamente sanitizada, evitando qualquer zona de desconforto, qualquer ambiguidade moral, qualquer fissura que pudesse ameaçar a imagem cuidadosamente construída. As inseguranças aparecem, mas sempre de maneira controlada, domesticada, quase estética. As transformações físicas e emocionais são tratadas como etapas inevitáveis de um percurso de sucesso, nunca como sintomas de algo mais profundo. Tudo é limpo, tudo é seguro, tudo é… inofensivo.
Curiosamente, é nos momentos em que o filme abandona a narrativa e se entrega ao espetáculo que ele encontra algum tipo de vitalidade. As recriações de shows, os números musicais, o design de produção e, sobretudo, o figurino, revelam um cuidado técnico inegável. Há uma atenção quase fetichista aos detalhes visuais da carreira de Michael, como se o filme entendesse perfeitamente a importância da imagem, mas não soubesse o que fazer com ela além de reproduzi-la. Nessas sequências, há energia, há precisão, há até um certo deslumbramento. Mas elas funcionam como ilhas dentro de um oceano de apatia dramática.
O grande responsável por sustentar essas ilhas é Jaafar Jackson. Sua performance é impressionante, ainda que o filme seja horrível. Não se trata apenas de imitação, mas de incorporação. Há algo quase perturbador na maneira como ele reproduz os gestos, a postura, o olhar, o sorriso, como se estivesse menos interpretando e mais canalizando uma presença. Em cena, ele convence plenamente como Michael. O problema é que o filme ao seu redor não oferece material suficiente para que essa performance vá além da superfície. É um trabalho extraordinário preso dentro de uma estrutura que não sabe explorá-lo.
Essa desconexão entre forma e conteúdo se torna ainda mais evidente no modo como a narrativa se organiza ou, mais precisamente, se desorganiza. A montagem parece guiada por uma lógica de associação livre, saltando entre momentos sem estabelecer um encadeamento emocional consistente. Não há sensação de evolução, apenas de acúmulo. E, à medida que o filme avança, essa colagem começa a se tornar cansativa, repetitiva, previsível. Sabemos que outro momento icônico virá, mas já não há expectativa sobre o que ele significará.
O ápice dessa fragilidade estrutural está no desfecho. Ao encerrar a história de forma abrupta, praticamente interrompendo a trajetória no auge da turnê Bad, o filme transmite a sensação de incompletude, não no sentido artístico de uma narrativa aberta, mas no sentido literal de algo que foi interrompido antes de se concluir. Falta um último movimento, um fechamento, uma reflexão que dê sentido ao que foi mostrado. Em vez disso, o que temos é um corte seco, quase administrativo, que reforça a impressão de que acompanhamos apenas metade de um projeto maior ou pior, um produto montado sem uma visão clara de onde deveria chegar.
Dá para tentar forçar a barra que a ideia do projeto seria mostrar a independência de Michael Jackson como clímax da história, mas a verdade é que a impressão que fica é que ninguém da equipe criativa queria chegar perto das polêmicas e dos tópicos difíceis da segunda metade da carreira do artista, como Rocketman fez, por exemplo. No fim das contas, Michael é um filme que confunde reverência com narrativa. Ao tentar proteger demais sua figura central, acaba esvaziando aquilo que torna qualquer biografia interessante: a tensão entre quem alguém foi e o que se tornou. Sem essa fricção, o que resta é um retrato estático, bonito por fora, mas sem vida por dentro.
É irônico, de certa forma, que um artista cuja obra sempre transbordou intensidade, contradição e complexidade seja reduzido aqui a uma sequência de momentos celebratórios. Porque, ao invés de nos aproximar de Michael Jackson, o filme nos mantém à distância, como espectadores de um museu bem iluminado, onde tudo está no lugar e nada realmente nos toca. E talvez esse seja o maior problema de Michael, já que não é um filme ruim apenas porque falha em contar uma história; é um filme ruim porque, diante de uma das figuras mais fascinantes da cultura pop, escolhe não dizer absolutamente nada.
Michael – EUA, 2026
Direção: Antoine Fuqua
Roteiro: John Logan
Elenco: Jaafar Jackson, Nia Long, Juliano Valdi, KeiLyn Durrel Jones, Laura Harrier, Jessica Sula, Mike Myers, Miles Teller, Colman Domingo
Duração: 127 min.