Bem-vindos ao Plano Piloto, coluna semanal dedicada a abordar exclusivamente os pilotos de séries de TV.
Número de temporadas: 1
Número de episódios: 150
Período de exibição: 1º de abril — 30 de outubro de 1974
Há continuação ou reboot?: Não.
XXXXXXXXX
O [chamado] ‘progresso’, no Brasil de 1974, tinha nome, sobrenome e endereço: chamava-se especulação imobiliária, morava na zona sul carioca e destruía tudo o que encontrava pela frente para meter asfalto, pintar de cinza e criar ilhas de calor e ambientação claustrofóbica, com projetos de prédios para todos os lados (isso lembra alguma outra época?). Dias Gomes sabia disso de cor e foi exatamente esse o ponto de partida de O Espigão, novela escrita por ele e dirigida por Régis Cardoso que estreou na Globo como a terceira produção da emissora em cores, seis meses depois de O Bem-Amado. Este primeiro capítulo nos apresenta a Lauro Fontana (Milton Moraes), empresário megalomaníaco obcecado em construir o Fontana Sky, um hotel supertecnológico de cinquenta andares em Botafogo, para o qual precisa comprar e demolir o casarão e a propriedade dos irmãos Camará, cheio de história e de memória familiar. A pergunta que o episódio planta, sem precisar verbalizá-la, é simples: a construção desse prédio é uma necessidade real, e, se for, para quem? Que mundo ela vai deixar atrás de si? Isso será melhor para a cidade e para toda a comunidade ou só para um quarteirão e um punhadinho de famílias abastadas?
Para mergulhar nesse mar de crítica ao ideal capitalista de progresso, Dias Gomes usou um recurso que havia ensaiado em O Túnel, peça que escrevera em 1968 e que nunca chegou aos palcos: um engarrafamento gigante numa noite de Ano-Novo dentro de um túnel do Rio de Janeiro. A cena foi reconstituída nos estúdios da Cinédia, em Jacarepaguá, em cinco dias de gravação, e concentra quase todo o elenco principal de uma vez só. Ali dentro estão Lauro Fontana; Lazinha Chave-de-Cadeia (Betty Faria), bandida de bom coração que vai se tornar sua amante; Léo (Cláudio Marzo), migrante chegado do Maranhão; e Dora (Débora Duarte), jovem grávida sem nenhum amparo. Técnica e visualmente, o resultado tem seus problemas — o chroma key usado na cena inicial é horripilante, assim como a edição de todas as cenas iniciais do episódio, que parecem soltas e sem sentido — mas a escolha dramatúrgica de concentrar tantos personagens e tensões num mesmo lugar funciona bem e cria uma sensação de “muitos problemas num único espaço“, um recurso narrativo sempre interessante de se ver. O episódio ainda carrega um pouco mais de música do que de ação dramática efetiva (eu já tinha reclamado sobre isso na análise de O Bem-Amado), mas que aqui incomoda menos porque diálogos curtos aparecem para contextualizar e cenas de indicação de ação válida surgem para fazer o enredo ir pra frente.
A novela gerou polêmica antes mesmo de entrar no ar: o empresário Sérgio Dourado, então o maior nome do mercado imobiliário carioca, reconheceu a si mesmo em Lauro Fontana e reclamou a Roberto Marinho, fazendo com que a novela quase fosse cancelada. Dias Gomes foi chamado às pressas para uma reunião na emissora. A novela foi ao ar, mas nunca mais voltou: a reprise programada para 1982 foi barrada por pressão das construtoras, que ameaçaram tirar os anúncios dos classificados do jornal O Globo. Vejam bem que, desta vez, nem precisou da censura da ditadura para calar a crítica da vez. Os próprios culpados do mercado que movem os fios invisíveis da política e da mídia é que assumiram a linha de frente da censura (a propósito, a mesma gentalha que ama sair defendendo “liberdade de expressão plena“. Pois é). Que um texto de televisão tenha gerado reação tão concreta de quem detinha poder econômico real diz tudo sobre o quanto ele acertou no nervo da questão. Com O Espigão, Dias Gomes também foi o primeiro autor a levar para a teledramaturgia brasileira palavras como “ecologia” e “ecossistema“, que até então circulavam apenas em meios acadêmicos e científicos.
Trânsito caótico em um momento de crise e ansiedade para as pessoas, objetificação da mulher, gravidez não amparada, tentativa de assalto e a ironia ao conceito de “bom bandido“; ecologismo; misticismo e mentalidade de “negócios e lucro acima de tudo” fazem parte do enredo deste primeiro capítulo de O Espigão. Aqui, Dias Gomes elencou e explorou personagens de diferentes grupos, classes, gêneros, intenções e contextos, falando sobre enterrar memórias e aquilo que é bom para todos, a fim de dar espaço para os absurdos que serão excelentes para poucos. Olhar para essa trama hoje nos faz pensar na nossa crise habitacional e na forma como o mercado imobiliário continua destruindo as cidades (com o apoio dos governantes que ganham muito com essa parceria) para erguer torres de luxo que ninguém de verdade consegue pagar, mantendo viva a mesma ferida que Dias Gomes expôs décadas atrás. Até quando, a gente não sabe. Mas quando a bolha explodir, não ficará pedra sobre pedra.
O Espigão – Capítulo 1 (Brasil, 1º de abril de 1974)
Criação: Dias Gomes
Direção: Régis Cardoso
Roteiro: Dias Gomes
Elenco: Milton Moraes, Betty Faria, Suely Franco, Cláudio Marzo, Débora Duarte, Vanda Lacerda, Ary Fontoura, Susana Vieira, Carlos Eduardo Dolabella, Rosamaria Murtinho, Mário Lago, Mauro Mendonça, Milton Gonçalves, Ruy Rezende, Ana Cristina, Myriam Pérsia, Maria Pompeu, Cecil Thiré, Rogério Fróes, Tonico Pereira, Nildo Parente
Duração: 30 min.