“O Riso e a Faca”: um filme que desafia e provoca
O novo longa-metragem de Pedro Pinho, “O Riso e a Faca”, estreia agora no circuito comercial paulistano e já provoca discussões intensas. A obra leva o espectador a uma jornada pela África Ocidental, onde um grupo diverso atravessa uma estrada ao som vibrante de Tom Zé, ícone da música brasileira underground dos anos 70. Esse detalhe abre uma atmosfera de liberdade e inquietação que permeia toda a narrativa.
A projeção não se prende a uma estrutura convencional, misturando elementos documentais e ficcionais para explorar questões culturais, raciais e sociais que atravessam os personagens e o próprio espectador. É essa liberdade estética, ao mesmo tempo sua força e sua fraqueza, que marca toda a experiência do filme.
O encontro cultural no centro da trama
No coração da história está Sérgio, interpretado por Sérgio Coragem, um português enviado a Bissau, capital da Guiné-Bissau, para elaborar um relatório sobre a construção de uma estrada. Sérgio representa um viajante deslocado, não apenas no espaço físico, mas em valores e relações humanas, caracterizando um colonizador consciente de sua falta de conexão e carisma.
O filme ganha vida principalmente nos encontros de Sérgio com moradores locais, em especial com Guilherme (Jonathan Guilherme) e Diára (Cleo Diára). Guilherme desafia o protagonista em questões raciais, coloniais e sexuais, enquanto Diára, com seu carisma arrebatador, preenche as lacunas deixadas por Sérgio nas discussões mais complexas e polarizadas.
Ritmo e estilo: entre o ruído e a inspiração
Pedro Pinho explora uma câmera na mão que alterna entre instabilidade e precisão, uma linguagem que remete a seus trabalhos anteriores e a filmes como “Verão Danado” (2017). Nos momentos de festa e tensão sexual, a câmera parece hesitar, refletindo o desconforto e a confusão dos personagens.
Apesar dos excessos em alguns trechos — como cortes apressados e poesia demasiadamente calculada — o diretor equilibra o tom ao longo das três horas e meia de filme, o que torna a obra mais acessível do que outras produções mais curtas, mas igualmente desafiadoras.
Documentário e ficção em fusão
“O Riso e a Faca” traz um forte componente documental ao olhar com atenção os costumes e rituais da Guiné-Bissau. Essa dimensão enriquecedora não apenas contextualiza a narrativa, como também cria um contraponto à solidão e à perda de direção de Sérgio. O protagonista se transforma em uma peça delicada dentro dessa engrenagem cultural, vulnerável diante das complexidades históricas e sociais que o rodeiam.
A busca pela síntese e o legado do diretor
Pedro Pinho ainda parece ter dificuldade em sintetizar suas ideias em tempos mais curtos. Seu filme anterior, “Fábrica de Nada” (2017), tinha três horas de duração e sofria com cenas esticadas, que nem sempre geravam o resultado esperado. Já seu primeiro longa solo, “Um Fim do Mundo” (2013), em preto e branco, foi uma obra mais concentrada e vigorosa — embora breve.
Com “O Riso e a Faca”, Pinho reafirma sua ambição audiovisual, misturando vários registros e formas de expressão. Resta saber se este filme representa um ápice autoral ou apenas um capítulo de uma obra mais ampla e em constante construção.
Atuações que sustentam a narrativa
O elenco é outro ponto alto do filme. Sérgio Coragem entrega um personagem complexo e um tanto desconfortável, enquanto Cleo Diára impressiona com seu alcance expressivo e carisma natural. Jonathan Guilherme se destaca ao confrontar o protagonista, levando o debate do filme a patamares mais profundos.
Essas atuações contribuem diretamente para os momentos de força do filme, dando peso e credibilidade às tensões e diálogos.
Pedro Pinho e seu cinema plural
A obra de Pedro Pinho transita entre a experimentação e o engajamento social, com pitadas de humor, crítica e musicalidade. Seus filmes anteriores— como “Bab Sebta” (2008) e “A Cidade e as Trocas” (2014) — já indicavam um olhar atento às complexidades humanas e políticas, sempre com uma abordagem visual marcada pela liberdade.
Com “O Riso e a Faca”, o diretor reafirma esse interesse, ao mesmo tempo em que desafia o espectador a aceitar sua maneira particular de narrar, com suas irregularidades e momentos de brilho cativante. O próximo trabalho de Pinho poderá definir se sua trajetória se consolida como uma das mais instigantes do cinema contemporâneo português ou se continuará a ser um projeto em aberto e cheio de nuances.
Assim, “O Riso e a Faca” é um filme que divide opiniões, mas que certamente merece atenção por sua coragem narrativa e estética inovadora. Um convite para refletir sobre as relações humanas em contextos de troca cultural, colonialismo e identidade.