Dizem que o Brasil é um “país sem memória”. O que existe é uma memória oficial construída a partir da supremacia de um grupo racial e masculino. Os povos negros, indígenas e migrantes ficaram de fora, como também ficou de fora a grande maioria das mulheres, em que pese muito tenham falado.
Só que esta terra brasileira foi encantada com seu suor, seu sangue e sua fé. Minhas ancestrais, por exemplo, se lembram de tudo e me abençoam para que eu conte minha própria história —senão, ninguém mais o fará.
Fui a primeira pessoa na imprensa brasileira a cobrar investigações da Polícia Federal sobre crimes sexuais como tráfico humano para exploração sexual, rufianismo e crimes correlatos à presença de garotas de programa estrangeiras nas esbórnias associadas ao Banco Master, do ex-banqueiro Daniel Vorcaro.
Fiz isso reunindo reportagens publicadas —devidamente citadas, pois preservo minha honestidade intelectual— por veículos distintos. Interpelei uma investigação policial que sustentava uma posição curiosa: a de que não era de interesse público investigar orgias —pagas com dinheiro público de fundos de pensão e capital privado de correntistas lesados por fraudes na “maior fraude bancária da história do país” (palavras de Fernando Haddad).
Para coroar, também não era de interesse público a conduta de autoridades que, segundo relatos públicos, estiveram presentes nos bacanais e foram registrados em vídeos e fotos —como reconheceu o presidente da CPI do INSS no programa Roda Viva. Crimes contra a imagem por si só, tal qual fui pioneira em apontar.
Não, eu não estava louca. Era, sim, uma “voz isolada”, como disse Milly Lacombe no UOL. O desinteresse maior da PF era sobre mulheres estrangeiras, que não saberiam reconhecer os senhores presentes nem entender o idioma. Em nenhum momento —até eu falar e ser capa neste jornal com a pergunta “Polícia Federal, e as mulheres?”— houve qualquer cobrança de apurações de crime sexual.
Meu pioneirismo foi longe, literalmente. Também fui a primeira pessoa a internacionalizar a denúncia de exploração sexual no caso Master. Fiz isso em Amsterdã, no dia 8 de março, diante de mais de mil pessoas, na presença da ministra da Educação, da prefeita da capital, de vereadoras, escritoras, jornalistas e da Nobel da Paz Oleksandra Matviichuk. Entreguei a autoridades neerlandesas um relatório em inglês com alertas às instituições locais. Sigo em contato, levando adiante as denúncias sobre a omissão das instituições brasileiras.
Nesta Folha, segui em abordagem inovadora: fui a primeira na imprensa a desafiar autoridades e a levantar a hipótese de garotas de programa estrangeiras na esbórnia de uísque em Londres. E os textos que fiz, pioneiros, provaram-se acertados. Li na coluna de Andreza Matais, no Metrópoles, que, após a farra do uísque, houve um encontro na suíte presidencial do hotel, acessível apenas a homens que portavam broches do banqueiro. Ali, mais garotas de programa brancas, loiras e estrangeiras os aguardavam.
Como se vê, a organização do Banco Master foi além de divergências partidárias e operou por meio de transações financeiras infinitas e corrupção na rede de relacionamento de homens com o poder, rede esta que ficou conhecida como o “clube do charuto”, expressão cunhada pela ministra Cármen Lúcia.
Para mim, entendo que o clube do charuto é uma confraria do ex-banqueiro, seus amigos do “mercado”, donos de jatinho, seus confrades pastores de igreja, seus empregados sicários, advogados contratados a peso de ouro, autoridades do sistema de Justiça, parlamentares, diretores do Banco Central e ministros de Estado para desbundes em farras que, por sua vez, tiveram como base brindes caros e serviço sexual de mulheres, serviço este agenciado e operado por homens.
As reflexões sobre tráfico sexual iniciadas nesta coluna despertaram atenção na política institucional. Em 6 de março, a senadora Damares Alves oficiou a Polícia Federal para apurar a possível ocorrência de tráfico de mulheres, tráfico de drogas, estupro e presença de menores de idade no contexto dessas festas.
Já nesta última semana, o senador Alessandro Vieira apresentou seu relatório na CPI do Crime Organizado. Por mais que existam divergências em relação ao documento e pontos que devem ser ouvidos e aprofundados, o relatório reconhece indícios latentes de tráfico sexual, incluindo conversas entre o ex-banqueiro e sua ex-namorada sobre a contratação de 300 garotas de programa para uma de suas orgias. O relatório se soma às cobranças institucionais por respostas. Aqui, nós seguiremos perguntando: Polícia Federal, e as mulheres?
Que fiquem os registros. E viva a imprensa feminista e independente!
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